quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Não estou louco, Doutor. Juroquenão. Sim, fui eu. Sim, a mat... Oras, ela tinha que morrer! Tinha! Como assim? Não estou entendendo, Doutor. Ãhn? Não sei. Não sei. Não dizem que a arte imita a vida? Pois então. Ela não podia sobreviver. Simplesmente não podia. Mas é claro que não estou louco! Já não te falei isso? Incapaz? Incapacidade mental? Claro que não, diabos! Como eu poderia se... Escuta, sou autor publicado. As pessoas comprariam meu livro se eu fosse mentalmente incapaz? Comprariam? Como assim ninguém compra meus livros? E daí que a Editora disse que... Foda-se a Editora, ouviu? Eles não sabem de nada! De nada. É, eu sei, falei em meteoro. Meteorito. Sei lá. Quantas foram? Acho que cinco. Talvez dez. Lê aí o laudo do IML, pô! Doze? Então é isso, doze. Licença poética! Foi uma licença poética! Não as facadas, o meteoro! O senhor é burro, por acaso? Desacato? Isso é sim abuso de poder! Ou estupidez. Acho que estupidez, como eu poderia fazer cair um meteoro na menina? Me matar? Não, claro que não, não teve meteoro nenhum. Nem enterro. E mesmo se tivesse, alguém apareceria. Minha mãe. Já falei, licença poética! Não dá para acontecer igualzinho, dá? Ou como eu iria arranjar um meteoro, me diz? Como?
Ela era loira. Não loira loira, oxigenada; esse tipo de loira. E tinha a ponta dos cabelos pintadas de roxo, violeta, púrpura. E as unhas da mão, também. Falando em mãos, carregava uma flor. Púrpura. Não era rosa, tampouco Cairo, era uma flor. Uma flor qualquer. E se vestia de preto, inteiro de preto. Usava coturno. E tinha piercing no nariz. Era feia. Acima de tudo - nas aparências -, era feia.

(E agora?) (Já falei que ela era feia?) (Já.) (E que tinha o cabelo bicolor?) (Já, também) (E da flor, falei?) (Falei. E falei, e falei, e falei de tudo.) (Hum...) (Falei da camiseta?)

Sua camiseta tinha uma estampa de banda de rock. Passeava pela Augusta.

(Bom, faltou algum detalhe?) (Não, acho que não...) (Então...) (Então?) (O que acontece?) (Droga, o que acontece com ela?) (Ela estava andando.) (Certo, andando.) (E depois?) (Oi?) (E depois!) (Então...)

E então, caiu um meteoro. Meteorito. De pequenas proporções. O corpo dela e do escritor foram achados, semanas depois, por entre os escombros. No enterro dele, ninguém compareceu.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Elevador

Entrou apressado.

- Bom dia!

- Bom dia! - respondeu a ascensorista - Vai descer em que andar?

- Subir, moça, subir. Décimo quinto, por favor.

...

- Calor hoje, né?

- Ô! - respondeu, batucando os pés no chão e com um olhar meio ansioso. Estava inquieto.

...

- Décimo quinto.

- Obrigado!

Desceu, enquanto resmungava baixinho que não se podia mais nem peidar no elevador em paz.
A vida é curta. Curta como a respiração ofegante de um casal no exato momento antes do gozo e da explosão, quando nos damos conta de que crescer não é tão ruim assim, afinal.

Com a diferença de que o orgasmo da vida é, via de regra, uma merda.

domingo, 7 de outubro de 2012

Mais uma vez, eleições

Sempre pensei em democracia como farsa. Talvez seja, mesmo - mas talvez isso seja um bocado radical demais.

Não fiz coro à campanha anti-Russomanno (mas também não votei nele). Achei fora de propósito. Parece que em toda eleição, agora, temos um inimigo a ser combatido; alguém que lidera as pesquisas, ou chega muito perto disso, e que acaba perdendo por conta de um "alto índice de rejeição".

Meio bem comtra o mal.

Sinceramente, qual a diferença? Haddad, Russomanno, Serra, Chalita? Um abismo entre eles, sem dúvida, mas ao mesmo tempo...

Todos que fazem da política uma carreira. Como ser advogado, professor, engenheiro, entregador de pizzas. Então pergunto de novo: qual a diferença? E qual o problema em deixar os evangélicos assumirem o poder no Estado de São Paulo? Eles também não tem voz - representatividade - política?

Aliás, é interessante notar o mapa geopolítico eleitoral da cidade de São Paulo. Depois vêm uns sujeitinhos me dizer que não existe mais periferia...

E talvez aí resida o meu ponto positivo, ainda que seja um tanto quanto reducionista: o voto da periferia foi para o segundo turno, junto com o que representa as classes médias, o centro. É isso. Há política nas eleições, se procurarmos com cuidado.

Mas não é isso, também.

No fundo no fundo, as mudanças radicais de que tanto necessitamos não ocorrerão na democracia, não importa se o voto é para o DEM ou para o PSTU.

Cada vez mais chego à conclusão de que a democracia sempre leva à um equilíbrio político; é uma conciliação de forças, que caminham para o centro e bloqueiam radicalismos.
- Nossa, sério mesmo? Você ainda não assistiu?

- Não, nem sei o que é isso.

- Você tem que ver, é muiiito bom!

- Então tá...