segunda-feira, 5 de março de 2012

Vi um menino que me fez refletir hoje.

Ele estava perto de um poste, sentado na grama, no meio daqueles canteiros da Paulista.

Lia um livro.

Era meia-noite.

Acho que é um pouco disso que precisamos no mundo: tornar o público público. Apropriar-se do espaço público, utilizá-lo para reflexão.

Imagino porém que essa cena seria impossível em plena luz do dia, com o imenso fluxo de pessoas que per-corre aquela região.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

As a flower that could last
a book i couldn't write
as words in another language

The heartbeat flows
no one nows exactly why.
Acho que isso era parte dos estudos do Burroughts. Quando os acontecimentos se concatenam às ideias que temos, ou o trecho de um livro bate em uma fotografia e rola um estalo, uma epifania, e as coisas passam a fazer sentido.

Lia o romance de Furio Lonza, Crossroads, onde ele dedica um capítulo inteiro a exaltar o jornalismo de Hunter S. Thompson. E eu lembrei de sua nota de suicídio, retirada de um livro não menos emblemático: Soccernomics, de Kuper & Szymanski, obra que tenta reunir futebol e economia para extrair dados estatísticos inéditos de modo didático e, porque não dizer, exagerando no sensacionalismo.

Aí eu me empolguei com Norman Mailer, A Luta, onde o jornalista narra sua visão da luta do século, Mohammad Ali vs. George Foreman, o das grelhas. E qual a surpresa em ver que Norman dedica também algumas páginas para falar de... Hunter S. Thompson.

Resultado, acabei lendo Rum: Diário de um Jornalista Bêbado de bate-pronto, em um fim-de-semana qualquer.

Sonho

 Chovia. E cada gota da chuva era um verso, formando a tempestade, o poema.

E eu estava lá, na rua, correndo desesperadamente, tentando me molhar. Mas tão logo as gotas me atingiam, elas escorriam pelo meu corpo, indo desaguar no chão.

O poema se perdia.

Desiludido, fechei os olhos. Para acordar no ônibus, a caminho de casa.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Trovoadas e calor, uma pessoa com cara de cachorro deitada aos meus pés. Na minha cama, um bichinho de pelúcia em formato humano dorme, segurando uma banana. Alguns livros de direito se acumulam à minha frente, junto com um livro do Furio Lonza.

Sinto que a escrita dele falta alguma coisa de substancial; acho que foi de propósito, mas o fim foi inusitado. Não num bom sentido, mas simplesmente rompeu com toda a estrutura do livro e não, isso não é uma resenha. Mas suas palavras mexeram comigo, me incomodaram.

Ele escreve como eu gostaria de escrever. Ou melhor, como eu imagino a minha escrita, devidamente polida.

E o que é pior: não gostei do livro.

Isso doeu, acho, narcisista que sou diante das minhas próprias palavras.
Ele tinha cara de cachorro.

E enquanto eu conversava com ele, revelando meus problemas, ele só olhava, compreensivamente.

Aproximou-se de mim, como a dizer não sofra assim, não vale a pena. E sorriu, ao seu modo, mas sorriu.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Resenhas - Dance Dance Dance (Haruki Murakami)

Sempre tive preconceitos com a obra de Murakami por conta de sua adesão ao movimento literário pós-modernista japonês, mas, lendo uma entrevista sua para uma revista literária, fiquei com vontade de sentar e encarar seus livros e, admito, a surpresa foi ótima.

Acho que consigo contar no dedo os romances que li de um tiro só, ininterruptamente, como fiz com Dance Dance Dance: certamente quase toda a prosa de Maurice LeBlanc, John Fante, J. M. Simmel, Eiji Yoshikawa, e pára por aí. Isso significa duas coisas: a primeira delas é que Murakami é um romancista, e, portanto, um contador de histórias - ainda que sob uma perspectiva teórica, o romance seja um estilo literário vinculado à modernidade -; a segunda é que o livro é bom, muito bom (leiam leiam leiam Dance Dance Dance!).

Dance Dance Dance é uma obra bem-humorada, que tangencia com o surreal(ismo) a todo momento. O personagem principal, um homem divorciado, medíocre e solitário, já beirando os quarenta anos, procura por uma ex-namorada, garota de programa de luxo. Em sua jornada, as conexões se perdem, e ele acaba se envolvendo com pessoas das mais diversas: um poeta maneta, uma outra garota de programa, um ator famoso e amigo de infância, uma menina de 12 anos extremamente sensitiva e seus pais irresponsáveis, uma recepcionista de hotel, um homem-carneiro.

No livro, todos os personagens parecem constantemente evitar o real, ou não saber delimitá-lo. O que há de concreto, tangenciável e, portanto, capaz de trazer a felicidade, é a busca pelo amor.  Na verdade, o encerramento da obra revela algumas facetas típicas não apenas do romance, como da literatura popular contemporânea. O surreal e absurdo (um homem-carneiro, o Hotel Golfinho, a ex-namorada) aparecem como um problema de enfretamento e amadurecimento: é preciso reconhecer e encarar a realidade, para poder superá-la. A partir do momento em que o personagem central realiza isso, as cortinas se fecham, e o livro encerra sua narrativa. Numa abordagem um bocado filósofica, a realidade está na busca, e não somente no encontro; o amor é processo, mais que um momento específico, ainda que, ao encontrar a pessoa amada, o sentimento se torne palpável; portanto, real.

É portanto a tomada de consciência de que a felicidade é provisória, que pessoas partem, e o futuro é inexplicável e incerto que leva o livro a seu título. Diante do mundo, cabe enfrentar as imprevisibilidades (ou a realidade), sempre ao som da música, sempre dançando.